O que é doença do silicone?
“Doença do silicone” é o nome popular usado por muitas pacientes para descrever um conjunto de sintomas que elas acreditam estar relacionados às próteses mamárias. O termo mais usado na literatura internacional é Breast Implant Illness, ou BII.
Ela não é considerada uma doença única, com um exame específico capaz de confirmar o diagnóstico. Mesmo assim, os sintomas relatados por algumas pacientes são reais e precisam ser avaliados com seriedade. O FDA reconhece relatos de sintomas sistêmicos em mulheres com implantes, como fadiga, dores articulares e musculares, queda de cabelo, alterações de peso, ansiedade, depressão e dificuldade de memória ou concentração.
As queixas podem variar bastante. Algumas pacientes relatam cansaço fora do normal, dores no corpo, dor nas articulações, sensação de inflamação, queda de cabelo, alterações de pele, olho seco, alteração do sono, ansiedade, mudança de humor, dificuldade de concentração e sensação de “mente nebulosa”.
Esses sintomas podem aparecer pouco tempo após a colocação das próteses ou muitos anos depois. Também podem acontecer em pacientes com diferentes tipos de implantes, independentemente do formato, superfície ou preenchimento.
Toda paciente com silicone vai ter esse problema?
Não.
A maioria das pacientes com próteses mamárias não desenvolve esse tipo de quadro. Muitas mulheres convivem bem com seus implantes por muitos anos, sem sintomas sistêmicos.
O ponto importante é outro: quando a paciente sente que algo mudou no corpo depois da colocação das próteses, ou quando passa a conviver com sintomas persistentes sem explicação clara, essa queixa não deve ser ignorada.
Existe exame para confirmar doença do silicone?
Não existe um exame único que confirme a doença do silicone.
A investigação costuma ser feita por exclusão. Isso significa avaliar outras causas possíveis para os sintomas antes de atribuir tudo aos implantes. Dependendo do caso, podem ser solicitados exames laboratoriais, exames hormonais, avaliação reumatológica, exames de imagem das mamas, ultrassonografia, ressonância magnética e avaliação de outras especialidades.
O objetivo não é apenas olhar para a prótese. É olhar para a paciente como um todo.
Pode ser confundida com outras doenças?
Sim.
Muitos sintomas atribuídos à doença do silicone também podem ocorrer em doenças autoimunes, alterações da tireoide, deficiência de vitaminas, anemia, distúrbios hormonais, ansiedade, depressão, doenças reumatológicas, distúrbios do sono, estresse crônico e outras condições clínicas.
Por isso, uma avaliação apressada pode levar a conclusões erradas. A paciente pode ter sintomas reais, mas a causa pode não ser a prótese — ou pode haver mais de um fator acontecendo ao mesmo tempo.
A prótese de silicone causa doença autoimune?
Esse é um dos pontos mais delicados.
Até o momento, o FDA informa que não encontrou associação clara entre implantes de silicone e doenças do tecido conjuntivo, câncer de mama ou problemas reprodutivos. Ao mesmo tempo, reconhece que há relatos de sintomas sistêmicos em pacientes com implantes e que a origem desses sintomas ainda não é totalmente compreendida.
Por isso, o tema precisa ser tratado com equilíbrio. Não é correto dizer que toda prótese causa doença. Também não é correto dizer que toda paciente com sintomas está “imaginando” o problema.
A doença do silicone é psicológica?
Não devemos reduzir a queixa da paciente a algo “psicológico”.
Algumas pacientes chegam cansadas, frustradas e sem resposta depois de passar por vários médicos. Muitas se sentem invalidadas porque seus exames vêm normais, mas os sintomas continuam.
Ao mesmo tempo, sintomas como fadiga, dor, sono ruim, ansiedade e dificuldade de concentração podem ter múltiplas causas. O papel da avaliação médica é escutar a paciente, investigar com cuidado e evitar decisões baseadas apenas em medo ou em promessa de cura.
Retirar a prótese melhora os sintomas?
Algumas pacientes relatam melhora após o explante. Outras melhoram parcialmente. E algumas podem não apresentar melhora significativa.
Uma revisão sistemática publicada em 2025 encontrou melhora de sintomas após explante em parte importante das pacientes analisadas, mas esse tipo de dado precisa ser interpretado com cuidado, porque os estudos disponíveis ainda têm limitações, diferentes critérios de inclusão e dificuldade de separar causa, associação e expectativa de melhora.
Por isso, o mais honesto é dizer: retirar as próteses pode ajudar algumas pacientes, mas não é possível prometer cura.
Precisa retirar a cápsula junto?
Nem sempre.
A cápsula é a cicatriz interna que o corpo forma ao redor do implante. Em alguns casos, sua retirada pode ser indicada, como em contratura capsular importante, ruptura, calcificações, suspeita de doença associada à cápsula, seroma tardio ou outros achados relevantes.
Mas a retirada total da cápsula pode aumentar o tempo cirúrgico, o sangramento, o trauma dos tecidos e o risco da cirurgia, principalmente quando a cápsula está muito aderida à parede torácica.
Por isso, a decisão entre capsulectomia total, parcial ou apenas retirada do implante deve ser individualizada. O melhor plano é aquele que trata o problema sem adicionar risco desnecessário.
O que é explante em bloco?
“Explante em bloco” significa retirar o implante junto com a cápsula inteira, sem abrir esse conjunto durante a cirurgia.
Esse termo ficou muito conhecido nas redes sociais, mas ele não é necessário para todas as pacientes. Em algumas situações específicas, como suspeita oncológica relacionada à cápsula, essa técnica pode ser importante. Em outras, pode não trazer benefício adicional e aumentar riscos.
A técnica deve ser escolhida por indicação médica, não por pressão de internet.
E se a prótese estiver rompida?
A ruptura do implante muda a avaliação.
Quando há suspeita ou confirmação de ruptura, é importante entender se o silicone está contido dentro da cápsula ou se houve extravasamento para tecidos próximos ou linfonodos. Ultrassonografia e ressonância magnética podem ajudar nessa investigação.
Nesses casos, a retirada ou troca do implante pode ser indicada por uma razão objetiva, independentemente do diagnóstico de doença do silicone.
E se os exames estiverem normais?
Exames normais não significam que a paciente não sente nada.
Eles significam apenas que, naquele momento, não foi encontrada uma alteração objetiva nos exames realizados. Mesmo assim, se os sintomas persistem e a paciente não deseja mais manter os implantes, o explante pode ser discutido dentro de um planejamento responsável.
A diferença está na expectativa: operar para retirar algo que incomoda é uma decisão possível. Operar esperando a cura garantida de todos os sintomas é uma promessa que não deve ser feita.
O convênio pode cobrir?
A cobertura depende do caso, do contrato da paciente e da documentação médica.
Quando existe ruptura, contratura capsular importante, dor, alteração em exames, seroma, suspeita de complicação ou necessidade médica documentada, pode haver solicitação ao convênio para investigação ou tratamento.
Quando a indicação é apenas desejo pessoal de retirada, sem alteração clínica ou radiológica documentada, a cobertura costuma ser mais difícil.
Por isso, o relatório médico precisa ser técnico, claro e fiel ao quadro real da paciente.
Como deve ser uma avaliação responsável?
Uma avaliação responsável começa escutando a história da paciente. Quando os sintomas começaram? Eles surgiram antes ou depois da prótese? Pioraram com o tempo? Existem doenças associadas? Há alteração nos exames? Existe dor mamária, contratura, ruptura, seroma ou alteração de imagem?
Depois disso, é possível avaliar as mamas, revisar exames antigos, solicitar novos exames quando necessário e decidir se o caminho será acompanhamento, investigação clínica, troca das próteses ou explante.
A decisão não precisa ser tomada no susto. Ela precisa ser tomada com informação.